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A LUTA DO TEATRO OFICINA É NOSSA


// Há muitos anos, desde quando estava no Senado Federal, acompanho as discussões acerca da questão do Teatro Oficina, dirigido pelo dramaturgo José Celso Martinez Correa, que fica no Bixiga, no bairro da Bela Vista, área central da cidade de São Paulo. Projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi e tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico
Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) em 1982, o prédio do Teatro Oficina, aclamado pelo jornal inglês The Guardian como um dos mais belos teatros do mundo, previa a abertura para um grande teatro grego, a céu aberto. A área do que seria o teatro grego, com mais ou menos 600 metros quadrados, é hoje um estacionamento e pertence ao Grupo Silvio Santos.
O Grupo pretende usar esse terreno para a construção de torres, com salas de teatro, cinemas, lojas de discos, livrarias e um parque temático. Segundo o diretor José Celso Martinez, o tombamento do prédio do Teatro Oficina significa o tombamento de um projeto cultural, e as construções em seu entorno devem levar em consideração o bem tombado, sua arquitetura e estética, sem prejudicar sua visibilidade e seu pleno funcionamento.
As negociações entre Silvio Santos e José Celso já duram 37 anos. Agora como vereador, intermediei pelo menos duas reuniões entre os dois, com a presença do prefeito João Doria, que também atua para que haja um acordo.
Em 21 de novembro último, o dramaturgo esteve no plenário da Câmara Municipal de São Paulo para fazer um apelo aos vereadores no sentido de ajudar a encontrar um desfecho que não ameace o teatro e o patrimônio cultural inestimável da região do Bixiga. Recentemente o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) reviu o tombamento, retirando a proteção ao entorno do teatro.
Em breve, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) deverão se manifestar a respeito. Inúmeras pessoas, artistas, urbanistas, cidadãos, estamos fazendo uma força tarefa para encontrar uma solução que viabilize o Parque Cultural do Bixiga, o “Anhangabaú da Feliz Cidade”.
A campanha contra a construção do empreendimento e pela valorização do Teatro Oficina cresceu e ganhou o apoio de artistas como Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Antonio Fagundes e Caetano Veloso. O Bixiga é um bairro tradicional, tombado, repleto de manifestações culturais, materiais e imateriais.
Além do Oficina, abriga, entre outros, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), a Vila Itororó, a escola de samba Vai-Vai e a Festa da Achiropita. Como bem escreveu o arquiteto, urbanista e ex-vereador Nabil Bonduki em artigo no jornal Folha de S. Paulo, o bairro da Bela Vista, onde está o Bixiga, foi cortado por uma das piores intervenções da cidade. Por isso, São Paulo tem uma dívida com o Bixiga.
A implantação de um projeto urbano--ambiental-cultural, ancorado nesse terreno e conectado com as demais referências do bairro, como propõe o Oficina, é uma chance de pagar essa dívida. É fundamental que seja levada em consideração a manifestação do Teatro Oficina, uma das companhias de teatro mais importantes do Brasil, que na década de 1960 foi um importante centro de vanguarda e de resistência aos anos autoritários do país, e os argumentos robustos da Associação Uzyna Uzona na luta pelo espaço, pelo Bixiga e pela Cultura de nossa cidade.